Desde o século XIX que a memória tem vindo a ser classificada em memória de longo prazo e memória de curto prazo. Esta distinção foi explorada mais aprofundadamente em 1968, pelo modelo de memória Atkinson-Shiffrin, que sugere que a memória humana envolve uma sequência de três fases:

  1. Memória sensorial:

    os órgãos dos sentidos têm uma capacidade limitada de armazenar informação acerca do mundo sem a processar, mais ou menos durante um segundo. Por exemplo, a visão possui memória icónica para estimulos visuais como as formas, os tamanhos, as cores e as localizações, mas não lhes atribui um significado.

  2. Memória de curto prazo:

    a nossa memória de curto prazo é onde a maior parte do processamento de informação tem lugar. É onde tentamos atribuir significado ao que vemos e ao que ouvimos, convertendo essas informações em algo significativo, preenchendo as lacunas com elementos da memória de longo prazo. Neste ponto, a informação é retida durante 15 a 30 segundos, o que é mais do que suficiente para que volte a ser reutilizada.

  3. Memória de longo prazo:

    a memória de longo prazo permite que a informação seja retida, não apenas por segundos, mas por uma vida. Esta memória parece ter uma capacidade ilimitada de reter informação.

A memória de curto prazo e a interpretação

O papel da memória de curto prazo na interpretação tem sido discutido por vários investigadores. Temos, como exemplo, Daniel Gile que considera o desempenho da interpretação como um conjunto de três esforços, cada um dos quais tem o seu papel no fornecimento limitado da capacidade de processamento:

  1. Esforço para escutar e para analisar: envolve todas as atividades de compreensão, como a análise das características acústicas dos sons, o reconhecimento de certas sequências de sons e a interpretação do significado das palavras e das frases.
  2. Esforço de produção: a parte de emissão da interpretação, que envolve todas as operações, desde a representação mental da mensagem até à sua comunicação.
  3. Esforço da memória de curto prazo: envolve as operações que ocorrem continuamente durante a interpretação. As operações da memória de curto prazo são necessárias devido ao desfasamento entre o momento em que é emitido o discurso e o momento em que é analisado. Além disso, a memória de curto prazo também tem o seu papel entre o momento em que os sons do discurso são analisados e formulados como ideias e o tempo que se demora a produzir o discurso. Este esforço pode ser intensificado devido a problemas situacionais ou a fatores linguísticos específicos (por exemplo, o sotaque do orador ser de difícil compreensão, o discurso ser pouco claro ou a informação apresentada ser densa). É também mais difícil recordar informação se a língua de partida for sintaticamente diferente, com estruturas diferentes da língua de chegada, fazendo com que o intérprete reformule segmentos do discurso mais cedo do que o normal.

Estes três esforços em conjunto com um esforço de coordenação são encontrados tanto na interpretação simultânea como na consecutiva. A essência destes modelos de esforço implica que, em vez de uma grande capacidade de memória, o intérprete tenha uma gestão eficaz da informação que contribua para o seu sucesso.

Consequências de uma memória de curto prazo inadequada

A memória tem um papel importante em cada fase do processo de interpretação. O funcionamento adequado da memória de curto prazo envolve:

  • O processamento eficaz de sons em palavras conhecidas e posteriormente em trechos de informação, auxiliando-se na memória de longo prazo para preencher lacunas;
  • O armazenamento eficaz destes trechos de informação;
  • A recordação oportuna da informação.

Uma memória de curto prazo inadequada tem consequências negativas, algumas das quais poderão não ser óbvias. No entanto, as consequências mais óbvias de uma fraca memória de curto prazo estão relacionadas com:

  • A omissão de um qualificador (dizer “poderoso” em vez “extremamente poderoso”);
  • A omissão de uma oração subordinada (dizer “o ladrão foi detido pelo segurança da loja” em vez de “o ladrão, que foi apanhado em flagrante, foi detido pelo segurança da loja”);
  • A omissão de frases.

Outra consequência óbvia de uma memória de curto prazo fraca é aquilo a que podemos chamar “interpretação aproximada”, ou seja, o intérprete pode lembrar-se do que foi dito, mas não do grau de intensidade com que foi dito. Por exemplo, o intéprete pode utilizar o termo “bastante poderoso” quando, na realidade, o locutor queria dizer “extremamente poderoso” ou pode optar por um conector neutro (e, de certa forma, sem significado) quando não se lembrar se a ligação entre ideias era de adição, de oposição de ou consequência.

Existem consequências menos óbvias, mas ainda assim graves, quando os requisitos de memória são maiores do que a capacidade de memória e acaba por ocorrer a saturação. Isto pode ocorrer, por exemplo, quando as línguas são muito diferentes uma da outra, o que obriga o intérprete a armazenar uma maior quantidade de informação até ser capaz de a reformular. Quanto mais denso for o conteúdo da informação da língua de partida, mais difícil será para o intérprete lembrar-se de todos os trechos de informação.

Para reduzir estes problemas de memória, os intérpretes podem tomar notas durante as interpretações consecutivas ou simultâneas. Os nomes, os números e as datas devem ser apontados, uma vez que são muito difíceis, senão impossíveis, de reter, principalmente quando existem vários destes elementos agrupados. O mesmo acontece nos termos técnicos complicados e em toda a informação nova para o intérprete, que deve ser anotada para poder ser analisada e compreendida.

No entanto, quanto mais notas o intérprete tirar, mais a sua atenção estará focada em tirar notas e menos nos esforços de escutar e de analisar, os quais são essenciais a uma boa interpretação. Por isso, é importante que os intérpretes melhorem a sua memória de curto prazo de todas as formas possíveis.

 

Exercícios de melhoria da memória de curto prazo

Como já foi referido, o bom funcionamento da memória de curto prazo envolve o processamento eficaz de sons em palavras conhecidas e, posteriormente, em trechos de informação, o armazenamento eficaz destes trechos e a recordação, no momento certo, desta informação. O ideal seria trabalhar em cada um destes aspetos em separado, mas infelizmente isto não é possível. Sendo assim, os exercícios aqui propostos envolvem todos estes aspetos.

Os exercícios de memória devem simular a interpretação o melhor possível, uma vez que o objetivo dos exercícios é melhorar a memória para fins de interpretação. No entanto, este tipo de exercícios não deve envolver atividades bilingues, uma vez que estas conduzem a problemas diferentes nos quais a memória se irá focar. É altamente recomendável que os exercícios sejam feitos alternadamente em ambas as línguas do intérprete.

Para o desenvolvimento da memória de curto prazo, é necessário utilizar pequenos textos, onde as palavras individuais possam ser analisadas em contexto e retidas como trechos de informação, em vez de serem apenas retidas como unidades acústicas.

Os exercícios que aqui sugerimos podem ser utilizados por um intérprete, por um grupo de intérpretes que trabalhem em conjunto ou por um formador que ministra uma formação em interpretação.

Exercício 1: shadowing

O exercício de shadowing envolve repetir o que o locutor diz, palavra por palavra, na mesma língua. Normalmente o intérprete está sempre uma ou duas palavras atrasado em relação ao locutor à medida que vai repetindo o que ouve. Este desfasamento pode ser aumentado à medida que o intérprete vai ficando mais confortável. Este exercício é utilizado muitas vezes como preparação para a interpretação simultânea, uma vez que ensina o intérprete a ouvir e a falar ao mesmo tempo. É também muito bom para o desenvolvimento da memória, uma vez que obriga o intérprete a armazenar e a recordar pequenos grupos de sons, de palavras e de trechos de informação num período de tempo relativamente curto. No entanto, é complicado, pois o locutor continua a falar enquanto o intérprete tem de se recordar do segmento anterior, obrigando o intérprete a ouvir e a falar ao mesmo tempo.

Para este exercício, os textos utilizados devem ser relativamente curtos, podendo aumentar progressivamente de tamanho. Se trabalhar sozinho, grave um texto ou utilize um discurso que ouve na televisão ou na rádio. Caso trabalhe em grupo, uma pessoa pode ler o texto, enquanto outra o repete.

Exercício 2: shadowing com retoque

Como o primeiro exercício, este envolve repetir exatamente o que o locutor diz na mesma língua. No entanto, neste exercício a repetição é feita após uma pequena pausa seguindo o discurso do locutor, o que torna este exercício semelhante à interpretação consecutiva. Desta forma, são eliminadas as dificuldades relacionadas com a atividade de ouvir e de falar ao mesmo tempo e permitem ao intérprete focar-se principalmente na memória.

Para este exercício, podem ser utilizados os mesmos textos, mas estes devem ser divididos previamente em pequenos segmentos.

Exercício 3: shadowing livre com retoque

Este exercício só deve ser efetuado quando dominar bem os exercícios anteriores e, principalmente, quando já conseguir repetir longos enunciados sem problemas. É aqui que o intérprete irá testar a memória acústica e a memória de significados. Neste exercício, o intérprete não repete apenas o que foi dito, mas sempre que possível, tenta dizer a mesma coisa, utilizando outras palavras.

Normalmente esta prática de parafrasear o original é desencorajada em ambientes legais, pois é considerada o primeiro passo em direção à tradução livre. No entanto, como exercício de memória não apresenta qualquer problema.

Exercício 4: escutar com atenção os elementos-chave

Ouvir com atenção é um elemento importante para as recordações da memória. Se não ouvir algo com atenção, será impossível lembrar-se disso mais tarde. Em primeiro lugar, escutar com atenção envolve identificar os pontos-chave de um discurso. Por exemplo, deverá ser capaz de ouvir uma pequena narrativa ou um texto descritivo e responder às perguntas chave “Quem? O quê? Quando? Onde? Porquê? Como?”. Embora não seja possível responder a todas estas questões para todos os textos, a habilidade de responder a grande parte indica que escutou com atenção os pontos-chave.

Neste exercício, podem ser utilizados quaisquer textos descritivos ou narrativas e poderá gravar o texto, caso esteja a praticar sozinho, ou pedir a um colega que o leia, caso esteja a trabalhar em grupo.

Exercício 5: expandir progressivamente a capacidade de recordar

Uma boa memória tem de ser desenvolvida gradualmente. Este exercício foi criado com esta ideia em mente e baseia-se num discurso de 50 a 60 palavras que envolve lembrar-se primeiro das ideias principais e depois, durante a segunda ou terceira parte, ir-se lembrando de mais detalhes.

Numa primeira fase, o intérprete deve ouvir o texto uma vez e identificar as ideias principais. Ouvindo o texto uma segunda vez, o intérprete deverá ser capaz de adicionar mais detalhes às ideias principais. Ao ouvir pela última vez, o intérprete deverá ser capaz de se recordar de todos os detalhes.

Ao ter a noção de que não terá de se lembrar de todos os detalhes da primeira vez, o intérprete estará mais descontraído e lembrar-se-á de mais detalhes do que se estivesse tenso. À medida que o intérprete se vai tornando mais eficiente na recordação de detalhes, o número de vezes que ouve um texto pode reduzir para duas e o tamanho dos textos pode também aumentar. O principal objetivo é ser capaz de reproduzir todos os detalhes encontrados num discurso de cerca de 50 palavras, após ouvi-lo apenas uma vez.

Neste exercício, podem ser utilizados quaisquer textos descritivos ou narrativas e poderá gravar o texto, caso esteja a praticar sozinho, ou pedir a um colega que o leia, caso esteja a trabalhar em grupo.

Exercício 6: visualização

A maior parte das pessoas aprendem melhor de forma visual, ou seja, lembra-se melhor de algo que viu do que algo que lhe foi dito ou que leu numa folha de papel. As imagens permanecem na nossa cabeça durante muito mais tempo do que a informação abstrata. Por este motivo, as mnemónicas sugerem que utilize a visualização para reter diferentes tipos de informação criando imagens mentais. No entanto, dado que este tipo de imagem é artificial, leva algum tempo a ser criada e, por isso, não é prática para um intérprete.

Apesar disto, existem discursos que levam naturalmente à visualização e o intérprete deverá ser capaz de os identificar e de utilizar a visualização para os reter e recordar. Por exemplo, os intérpretes em tribunais têm, muitas vezes, de interpretar descrições que foram presenciadas por uma testemunha (um lugar, um suspeito, etc.). Estas descrições são ideais para o uso da visualização para melhorar a memória. As imagens devem ser visualizadas passo a passo e em sequências de imagens, o que irá ajudar o intérprete a reconstruir uma cena inteira.

Os exercícios de visualização podem ser completados com a recordação oral ou, em alguns casos, desenhando as imagens envolvidas. Por outras palavras, recordar memórias nem sempre tem de ser feito através de palavras.

Neste exercício, podem ser utilizados quaisquer textos descritivos ou narrativas, sendo que poderá gravar o texto, caso esteja a praticar sozinho, ou pedir a um colega que o leia, caso esteja a trabalhar em grupo.

Exercício 7: segmentar

Este exercício baseia-se no conceito de que é mais fácil reter um certo número de trechos com informação limitada do que apenas um ou dois trechos com muita informação. A segmentação envolve partir um trecho de informação maior em dois ou mais trechos menores.

Este exercício pode ser efetuado utilizando tanto textos orais como escritos e a segmentação pode ser tanto oral como escrita. Deverá ser capaz de ler a frase apenas uma vez e, de seguida, segmentá-la. Os textos devem conter frases longas e informação densa.

Exercício 8: reconhecer mensagens incoerentes ou ambíguas

Os locutores são, muitas vezes, pouco claros. Regra geral, os discursos incoerentes e ambíguos são difíceis de recordar. Este exercício pretende ajudá-lo a reconhecer incoerências ou ambiguidades no discurso, o que, por sua vez, é também uma forma de recordar o discurso em si. Após ouvir um texto relativamente incoerente e ambíguo, deverá ser capaz de identificar quais os aspetos incoerentes ou ambíguos e porque o são. Por exemplo, na frase “O João pediu ao Miguel que estivesse quieto. Depois, este chateou-se”, não sabemos se “este” se refere ao João ou ao Miguel. Assim que as incoerências ou ambiguidades forem identificadas, podem ser recordadas e é possível lidar com as mesmas ao nível da produção da interpretação.

Este exercício tem como objetivo simplesmente identificar o segmento ambíguo ou incoerente, numa tentativa de o recordar e não de lidar com o mesmo de alguma forma em particular. Serão necessárias frases ou passagens ambíguas ou incoerentes, pelo que deve recolher material deste género sempre que encontre algum.

Exercício 9: recordar mensagens com as quais discorda ou que acha ofensivas

A tendência de confirmação descreve a tendência para favorecer informação que vá de encontro a uma crença pessoal ou teoria. As pessoas demonstram esta preferência quando reúnem ou recordam informação de forma seletiva ou quando interpretam informação de forma preferencial. Mesmo que uma pessoa procure interpretar provas de uma forma neutra, poderá recordar a informação de forma seletiva. Este efeito é denominado “recordação seletiva”, “memória confirmatória” ou “memória de acesso preferencial”. Resumindo, é difícil recordar informações que são contrárias àquilo em que acreditamos.

Uma boa forma de lidar com este tipo de informação é colocar-se no lugar do outro. Por outras palavras, pense um pouco mais além e identifique-se com o locutor, pois, ao fazê-lo, estará a negar temporariamente as suas crenças pessoais e os seus preconceitos, assumindo os do locutor. Para praticar este exercício, comece por resumir um texto controverso e, em seguida, passe à fase de o reproduzir livremente.

Estes exercícios são apenas alguns exemplos daquilo que pode ser feito para treinar a memória de curto prazo. No entanto, cada pessoa é diferente, tal como a sua mente, e estes exercícios podem não ser todos eficazes para todas as pessoas. Além disso, é necessário ir reunindo materiais adequados aos diferentes exercícios e ter muita paciência, pois a memória é algo que se treina gradualmente.

Por isso, gostaríamos que nos deixasse os seus comentários com outros exercícios que conhece ou que pratica para melhorar a sua memória. Com que exercícios tem obtido os melhores resultados? Nunca praticou nenhum? Por alguma razão em especial? Ficamos à espera das suas opiniões e comentários!

 Artigo adaptado de uma publicação do jornal da ATA