É comum ouvirmos falar do gosto do tradutor pelas línguas, que será uma das primeiras motivações que leva os profissionais a enveredarem por esta profissão; no entanto, não será tão comum ouvirmos falar da enorme responsabilidade implícita no trabalho de tradução, independentemente do tipo de tradução a que nos estejamos a referir. Talvez por isso ouçamos tantas vezes pessoas alheias à profissão pensarem que traduzir é fácil. Afinal de contas, “basta aprender um pouco da língua”, ”qualquer pessoa traduz e traduz bem”, “é palavra a palavra” e “o que não conhecermos está no dicionário”.
No caso das traduções passíveis de serem utilizadas como prova jurídica, a atenção ao pormenor é ainda mais importante. Uma pequena “nuance linguística” pode fazer toda a diferença comprometendo todo o nosso trabalho, a nossa reputação e, quem sabe, a nossa carreira. Com um trabalho tão sensível e minucioso, é fundamental que o tradutor se proteja a si e ao seu cliente. Mas como?

 

1. Seja profissional

Antes de mais, tenha consciência das suas capacidades e conheça os seus limites. Um bom profissional não se compromete com um trabalho sem antes saber com o que se está a comprometer – conteúdo, dificuldade, prazos… Se lhe for proposto um projeto que considere não lhe oferecer as condições necessárias à realização de um bom trabalho, seja pelo prazo em questão, seja pela natureza técnica do mesmo, recuse! Estará a proteger-se a si mesmo e ao cliente.

 

2. Conheça as suas opções de certificação

Posto isto, saiba que nada o obriga a certificar seja o que for. Muitas vezes, o pedido de certificação surge apenas depois de concluída a tradução. Se é frequente o tradutor traduzir sem noção de o respetivo trabalho vir a ser certificado, mais frequente ainda é traduzir sem saber que a tradução virá um dia a constituir prova em tribunal. De facto, pode parecer senso comum, mas nunca é demais dizer que a certificação não é um ato obrigatório. Eu própria já me deparei com situações de tradutores que se recusaram a fazê-lo e estavam no seu pleno direito.

a) Imagine que tem pouco tempo para realizar a tradução. Alerta o cliente para esse facto e o mesmo pede-lhe para avançar com o melhor que as circunstâncias permitirem pois pretende apenas ter uma noção do conteúdo original. De repente, o cliente pede-lhe para certificar a tradução.
• Parece-lhe razoável aceitar?
• E se alguém introduzir alterações à sua tradução com as quais não concorda, parece-lhe sensato certificar a nova versão final?

Discuta com o cliente a melhor forma de resolver a questão, seja não se comprometendo com nada, seja acertando os termos para uma possível revisão/alteração, mas lembre-se de que não é obrigado a nada, exceto a ser profissional. A última palavra cabe a quem assina a certificação pois a responsabilidade civil será dessa pessoa.

 

3. Pense “taxativamente”

No caso da tradução de um roteiro turístico, o tradutor tem liberdade para embelezar o discurso, adaptando mesmo realidades diferentes. Por exemplo, o tradutor pode converter polegadas em centímetros para adaptar o texto à realidade do leitor português. Pelo contrário, esta competência de adaptação não é esperada, nem recomendada, para tradutores de documentos passíveis de constituírem provas jurídicas. Neste caso, o tradutor deve ser tão “taxativo” quanto o autor original, não adaptando, embelezando nem omitindo. Não poderá inclusive fazer eventuais correções ao texto de partida. Afinal, se o fizesse, poderia estar a beneficiar a defesa ou a acusação. O máximo que poderá fazer será apontar os erros em questão ou, se necessário, acrescentar pequenos esclarecimentos, por exemplo, em notas de rodapé. O cliente poderá, depois, optar por mantê-los ou apagá-los. Nesta fase, uma conversa com o cliente poderá ser igualmente importante para esclarecer eventuais interpretações incorretas e pontos de conflito na tradução.

 

4. Tenha cuidado com as referências

Neste tipo de traduções, é necessário um cuidado especial com as fontes onde procura fundamentar-se, seja com documentos semelhantes, seja com traduções existentes para o mesmo cliente. De facto, é perfeitamente natural, e denota mesmo profissionalismo por parte do tradutor, consultar fontes que o possam ajudar a fazer um bom trabalho. No entanto, convém não esquecer que a obrigação do tradutor é avaliar a melhor opção de correspondência entre o texto de partida e o texto de chegada. O facto de haver uma tradução-base não quer dizer que seja infalível; por isso, se não concordar com a mesma, não se deixe orientar por ela. Em muitos casos, seja na tradução de websites ou de contratos, são secretárias ou outros funcionários – pessoas sem experiência comprovada em tradução – que desempenham funções de tradutores. Muitas vezes, a melhor política a adotar é ler os materiais de referência apenas depois de concluído o primeiro esboço da tradução, pois assim não correrá o risco de se deixar influenciar. Em caso de dúvida, siga o seu instinto pois, em último caso, é por ele que terá de responder. Por outro lado, se tiver de reutilizar um excerto considerável de uma tradução sua, lembre-se que terá de obter autorização do cliente anterior.

 

5. Proteja-se enquanto protege o cliente

Ao ser profissional, o tradutor já estará a proteger o cliente, fazendo e entregando o melhor trabalho que sabe. Por outro lado, cabe ao tradutor respeitar a confidencialidade que o liga ao cliente. Deverá, por isso, ter cuidado com o que revela. A simples revelação de já ter efetuado traduções para uma determinada empresa implica a sua quebra de confidencialidade. Lembre-se: a tradução poderá ter sido um ato esporádico e isolado, mas o compromisso é eterno!

 

6. Traduza “sob compromisso de honra”

No caso específico de Portugal, para ser certificada, uma tradução terá de passar sempre por um notário, advogado ou solicitador, o qual emitirá uma declaração atestando os conteúdos da tradução e a competência do tradutor numa espécie de compromisso de honra. Uma vez que não compete ao tradutor redigir a declaração da certificação, apenas assiná-la, certifique-se, em primeiro lugar, de que lê e está de acordo com a mesma. Confirme que todos os dados estão corretos.

 

7. Evite impulsos

É frequente recebermos feedback das nossas traduções com sugestões de correção, esclarecimentos ou outras. Enquanto profissional que se quer sempre contactável, o impulso será o de responder imediatamente. Evite fazê-lo. Muitas vezes são sugestões aparentemente mínimas, de estilo, mas uma pequena palavra poderá atribuir o significado oposto, fazendo muitas vezes a diferença entre o que uma parte ou outra pretendem ouvir em tribunal. Resumidamente, é preferível que o cliente aguarde um pouco mais do que dar uma resposta de que se arrependa mais tarde.

 

8. Guarde cópias

Nos dias que correm, as capacidades do e-mail, do disco do computador ou dos discos externos são fantástica. As possibilidades são inúmeras, basta ser organizado. Para sua proteção, guarde todas as conversas mantidas com clientes e colegas, bem como tudo o que lhe possa ser útil para justificar uma determinada opção de tradução. Assim, no caso de ser contactado por causa de uma tradução entregue há anos, poderá sempre comparar para saber se está realmente a responder por um trabalho seu.

 

9. Proteja-se e… descanse!

O potencial de risco implícito à profissão do tradutor é, muitas vezes, descurado. No entanto, ele existe! Se, por um lado, é necessário ter consciência do mesmo, por outro, não é necessário dramatizar e perder o sono por causa disso. Saiba que tem à disposição um conjunto de medidas de proteção. Respeite-as, respeite-se a si e respeite o cliente. Dê o seu melhor e… siga em frente!

 

É tradutor? Que outros conselhos daria a um colega? Gostaríamos de receber os seus comentários.
 Artigo adaptado de uma publicação do jornal da ATA